Por que você não gosta de português?

  É horrível decorar regras chatas, não? Para muitos, a língua se resume a isto: uma grande decoreba. Coisa chata ter que descobrir onde enfiar a vírgula, ou então ter que classificar uma oração como subordinada substantiva reduzida de sei lá o quê... Nossa, como é chato abrir a gramática e tratá-la como algo obrigado, forçado contra a nossa vontade. Muitos tratam sua língua desse jeito. 

  Talvez você pense assim. Realmente, nesse ponto de vista, português é uma grande chatice, assim como mandarim, espanhol, inglês e todas as línguas do mundo. Afinal, todas elas possuem regras para serem decoradas. Não? Então diga um sistema de comunicação eficiente que não precisa decorar nada... Estou aguardando a sua resposta. 

  Porém, a grande questão é que a língua, muito mais do que palavras soltas organizadas por rígidas regras, se consolida como objeto de informação. É através da leitura que construímos o nosso conhecimento de mundo. É preciso ler para conhecer, para agregar a ciência das coisas. Ah sim, me desculpe... Você odeia português, então quer dizer que você odeia ler, tendo em vista que livros nada mais são do que um aglomerado de letras. Isso significa que seu conhecimento de mundo se resume... pela TV, talvez. 

  Claro que a escrita é uma parte fundamental da língua, pois é através dela que aprendemos a organizar o nosso conhecimento de mundo em pontos de vista. É pela escrita que somos capazes de nos posicionar ao invés de aceitarmos tudo que aparece pela frente. Afinal, é graças às ferramentas da linguagem que somos capazes de nos expressar bem e de articular os nossos argumentos. Ah, esqueci que você odeia português... Então quer dizer que você não gosta de escrever, muito menos de articular argumentos, de produzir textos argumentativos, de se posicionar a respeito das coisas.

  Claro que, quem gosta da língua, acaba desenvolvendo o hábito da leitura e, por sua vez, desenvolve a escrita, o que depois irá, naturalmente, desenvolver a expressão oral. Afinal, a expressão oral nada mais é do que expor, de modo automático, todo o processo de leitura e escrita que você praticou. É lendo e escrevendo que podemos agregar conhecimento de mundo e ganhar independência e soberania na articulação de nossos argumentos. Ah sim, esqueci que você odeia português e que acha a gramática uma pilha de regras sem sentido... Então, você não gosta de se posicionar ou de articular seus argumentos, seja verbalmente ou não, pois isso é um processo originário da prática escrita que está intimamente ligada à língua. Afinal, ela não se resume a palavras... A língua abrange expressão, pensamento, ideologias, argumentos, raciocínio, enfim... é um reflexo do caráter racional do ser humano. 

  Você, que odeia português e que, portanto, odeia ler, escrever, falar, se posicionar e argumentar, talvez saiba que o nosso mundo é um grande palco de guerra, pois a língua é a maior e a mais poderosa arma do globo. Por todos os lados, somos bombardeados por informações. A mídia exerce um poder quase sobrenatural sobre nós e muitas vezes, de modo inconsciente, aceitamos tudo o que nos influencia. É a língua quem dá as ferramentas argumentativas para a construção das ideologias, que por sua vez mudam o mundo. Foi a língua quem dividiu o globo entre o urso comunista e o Tio Sam, foi a argumentação quem fez os alemães acreditarem serem a raça ariana e aceitarem os judeus como o motivo de toda a desgraça do mundo. Foram articulações de ideias que revolucionaram o mundo político dos absolutistas, renovaram as artes, fizeram impérios ruírem e nações se destruírem. Foram palavras que enganaram o povo ignorante, fazendo as pessoas idolatrarem o tirânico ditador. É a língua quem escreve a história da humanidade. É a leitura e a argumentação que nos tornam, de fato, seres proprietários de nossos próprios pensamentos. 

  Se você acha português inútil, então deve odiar ler, escrever, argumentar e se posicionar. É por isso que muita gente vive na inércia do senso comum, aceitando tudo o que vê nas novelas e não se dando conta das inúmeras ferramentas de linguagem usadas na televisão e nos jornais para influenciá-las. Muitas pessoas não percebem o poder de influência da linguagem e aceitam, de modo inconsciente, tudo o que é apresentado. 

  O mundo é um grande cenário, onde protagonistas e figurantes dividem seu espaço. Há protagonistas que fundam igrejas e distorcem as doutrinas para seu próprio benefício, usando manipulações discursivas. Há protagonistas que convencem as pessoas, por diversas vezes, a os elegerem para passar férias no Congresso Nacional. Há protagonistas que imperam o mundo da informação, influenciando o modo das pessoas agirem, se vestirem e de pensarem, as obrigando a usarem calça xadrez, ou então pulseiras coloridas. Há protagonistas que te obrigam a consumir produtos desnecessários por apenas milhares de parcelas de 9,99 reais. Há protagonistas que conseguem te fazer entrar no cheque especial e fazem você pensar que é dono de um dinheiro que nunca foi seu e que, inclusive, você deve pagar por seu uso. E existem os figurantes, mais numerosos, que se limitam a permanecer em segundo plano, sem interagir no cenário, seguindo o jogo dos protagonistas., seguindo o senso comum. Afinal, os figurantes não gostam de sua própria língua, não gostam de ler nem de escrever, não gostam de argumentar nem de se posicionarem a respeito dos mais variados assuntos. Logo, é mais fácil alguém fazer isso por elas. 

  Ah sim, esqueci que você acha que a língua é apenas um aglomerado de regras. Esqueci que você desconsidera a língua no contexto prático da expressão, da oralidade, da argumentação e do posicionamento no contexto do mundo globalizado. Esqueci que você desconsidera a expressão linguística como uma poderosa ferramenta de influência capaz de fazê-lo aceitar algum tipo de pensamento. 

  O mundo não é o que parece ser. Leia, escreva, argumente e aprenda a se expressar. Quem olha para a língua pensando apenas nas regras de português está preferindo adotar uma visão normativa, imediata e limitada a compreender profundamente as bases que consolidam a expressão linguística no contexto da própria vivência. Assuma uma postura mais ativa nesse cenário onde protagonistas da informação brigam pela hegemonia de mentes, porque "em terra de cegos quem tem olho é rei". O nosso mundo é governado por aqueles que têm a habilidade nas palavras. 


Um comentário:

  1. Excelente a argumentação. Como professora de Português apoio sobremaneira a defesa por um uso correto de nossa língua, assim como incentivo sempre a leitura de bons livros e a prática constante da pesquisa em dicionários e gramáticas. Parabéns pelo texto e pela página. Abs. Rogélia

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