Variações linguísticas, adequação linguística e preconceito linguístico

Olá pessoal, tudo bem? Hoje nós vamos falar sobre variações linguísticas, adequação linguística e preconceito linguístico

 O QUE É VARIAÇÃO LINGUÍSTICA? 

Somos, hoje, mais de 200 milhões de habitantes vivendo no Brasil. E, claro, é impossível que todo mundo use a língua portuguesa exatamente da mesma maneira. É praticamente impossível que todo mundo escreva e fale da mesma forma o tempo inteiro, mesmo com a existência da gramática normativa.

Portanto, a língua não é algo homogêneo, mas sim ela é bastante diversa e variável e isso é absolutamente normal. Pessoas falam de formas diferentes de acordo com suas idades, níveis de escolaridade, origens e por aí vai. 

Logo, é perfeitamente normal que haja variações linguísticas em nosso idioma, ou seja: variações na forma de escrever e de falar na língua portuguesa. Em outras palavras, podemos dizer que dentro da nossa língua existem várias línguas. 

É muita língua!

Veja estes dois exemplos:

Exemplo 1: 
E aí, mano? Bora sair hoje? Tá afim de dar um rolê?

Exemplo 2: 
Convidamos o Sr. Jurandir a comparecer à reunião 
extraordinária por ocasião do término do expediente.

É perfeitamente possível que uma mesma pessoa use o tipo de linguagem falada no exemplo 1 e também a do exemplo 2 em diferentes situações comunicativas. Ou seja: uma mesma pessoa pode usar gírias e falar de um jeito mais informal e coloquial em uma determinada situação, mas também pode ser mais formal e culta em outras situações. Uma coisa é falar com um amigo próximo, outra coisa é falar com o chefe, por exemplo. Portanto, esse é apenas um dos diversos casos de variação linguística que existem em nossa língua.

TIPOS DE VARIAÇÕES LINGUÍSTICAS

Variação Diatópica (ou geográfica): está relacionada ao local de origem do falante. Podemos saber, por exemplo, se determinada pessoa veio do Rio Grande do Sul, do Rio de Janeiro, de São Paulo, da Bahia, de Minas Gerais ou então de Portugal somente pela forma que ela fala. A pronúncia das palavras, o sotaque e o uso de expressões típicas de determinada região nos ajuda a indicar o local de origem de alguém. Portanto, a variação linguística do tipo diatópica está relacionada com os falares característicos de determinado local (cidade, estado, região, país).




Variação Diacrônica (ou histórica): está relacionada às variações linguísticas que ocorrem ao longo do tempo. O pronome "você", por exemplo, era usado antigamente como "Vossa Mercê", que ao longo do tempo foi se reduzindo até chegar à forma "você". Trata-se, portanto, de uma variação linguística diacrônica.

Outro exemplo disso são as gírias, que mudam frequentemente ao longo dos anos, de geração em geração, já que os jovens de hoje não falam da mesma forma que os jovens de 10, 20 ou 30 anos atrás. Como por exemplo, nos anos 60 usava-se a gíria "broto" para indicar uma moça bonita e "pão" para se referir a um rapaz bonito. 


Tio Osvaldir arrebentando a boca do balão ensinando como se dança de verdade
(gíria dos anos 80 que indica "fazer algo incrível", "muito bem feito")


Variação Diastrática (ou social): está relacionada às diferenças sociais dos falantes. Sendo assim, pessoas de camadas sociais mais vulneráveis que não tiveram a oportunidade de completar o ciclo escolar e saíram ou permaneceram pouco tempo na escola têm mais dificuldades de se expressarem de acordo com a norma-padrão da língua. Por outro lado, pessoas de classes sociais mais privilegiadas, que tiveram acesso a boas escolas e completaram todas as fases da escolarização têm mais facilidade com o uso do Português padrão. 

Variação Diafásicas (ou situacional): está relacionada ao contexto ou situação em que estamos inseridos. Portanto, dependendo da situação, podemos ser mais cultosformais, ou então mais coloquiaisinformais. Conversar com amigos durante um churrasco num momento de descontração é algo completamente diferente do que fazer uma palestra ou uma apresentação num congresso da faculdade. É como roupa: usamos sunga para ir à praia, mas não usamos sunga para ir à escola ou faculdade. Cada situação ou ambiente exige um traje adequado.

Portanto, dependendo do ambiente em que estamos (onde e para quem falamos ou escrevemos), utilizaremos a linguagem de formas diferentes, buscando sempre a forma mais adequada de falar ou de escrever, ou seja: devemos ter atenção à adequação linguística. Cada momento, cada situação, cada ambiente demanda, de nós, uma forma de fala ou de escrita adequada a esse ambiente e essa variação é chamada de variação diafásica



O PRECONCEITO LINGUÍSTICO 

As variedades linguísticas são uma realidade na língua. Portanto, não existe uma variedade correta ou errada, melhor ou pior do que a outra. Não faz sentido, por exemplo, dizer que o falar dos cariocas é melhor do que o dos paulistas ou vice-versa. Não faz sentido dizer que as gírias usadas no tempo dos nossos avós são melhores ou piores do que as gírias de hoje, ou então que o jeito de falar dos portugueses é melhor ou pior do que a forma de falar dos brasileiros. 

Todas as variantes são válidas. Portanto, xingar, zombar, debochar, menosprezar, fazer piadas ou discriminar pessoas pela forma que falam ou escrevem constitui preconceito linguístico. Quando olhamos para a população como um todo, devemos ter em mente de que somos pessoas de diferentes origens, de diferentes histórias e condições sociais e tudo isso repercute na forma com que nos expressamos, seja falando ou escrevendo. Portanto, é preciso saber conhecer e conviver com toda essa diversidade linguística, conhecendo as variantes, aumentando o nosso repertório linguístico e nos expressando da forma mais adequada para cada tipo de situação. Conforme diz o gramático Evanildo Bechara, "somos todos poliglotas na mesma língua".



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