Funções do "se"

Veja, agora, as funções que o "se" pode desempenhar:

1) Reflexivo ou Recíproco 

O "se" pode ser pronome reflexivo (quando o sujeito realiza a ação para si próprio, como se estivesse "refletindo" a ação para ele mesmo) ou pronome recíproco (quando a ação é realizada de modo recíproco). Observe:

Nostragildo cortou-se com a faca
Nostragildo e Zunilda se beijaram 

No primeiro exemplo o "se" funciona como pronome reflexivo, já que o sujeito (Nostragildo) realiza a ação de cortar a si próprio (Nostragildo corta Nostragildo).

No segundo exemplo o "se" funciona como pronome recíproco, já que Nostragildo beija Zunilda e Zunilda beija Nostragildo, ou seja: a ação é recíproca, já que os dois praticam e recebem a ação um com o outro.

2) Partícula Apassivadora ou Índice de Indeterminação

Para entender esse assunto, você precisa saber o que são Vozes Verbais. Dê uma rápida olhada, clicando aqui.

Quando o "se" for usado na voz passiva sintética ele será chamado de partícula apassivadora. A voz passiva nada mais é do que a inversão os termos da oração seguindo este exemplo:

Voz ativa: "Frangos bovinos são vendidos". 

Voz passiva: "Vendem-se frangos bovinos".

O que vem a ser um "frango bovino"?


Sempre que pudermos inverter a oração desse modo o "se" será chamado de partícula apassivadora, pois ele estará indicando que a oração está na voz passiva. Na voz passiva sintética, o verbo sempre estará na terceira pessoa do plural (eles/elas), ou seja: "vendem" (como mostrado no exemplo).

Agora, se o verbo não estiver na terceira pessoa do plural então não será possível inverter a ordem dos termos da oração e brincar com as vozes verbais. Isso acontece porque a oração fica com o sujeito indeterminado. Então, o "se" passa a ser chamado de índice de indeterminação do sujeito.

Resumindo:

Vendem-se frangos bovinos
o verbo está na 3ª pessoa do plural, logo o "se" é a partícula apassivadora

Vende-se frangos bovinos*
o verbo está na 3º pessoa do singular, logo o "se" é o índice de indeterminação do sujeito.

*Polêmica

Essa questão do "-se" atuando como índice de indeterminação do sujeito ou então como partícula apassivadora ainda não foi resolvida. Os próprios gramáticos se dividem. Veja, por exemplo, o caso do "vende-se casas" e "vendem-se casas". Alguns gramáticos dizem que o correto é "vendem-se casas". Outros dizem que as duas construções são corretas. Entenda:

Versão 1: "Vendem-se casas" é o mesmo que "casas são vendidas". Logo, "vende-se casas" é o mesmo que "casas é vendida", o que é errado. Logo, é errado dizer "vende-se casas". O correto é "vendem-se casas". 

Versão 2: "Vendem-se casas" é o mesmo que "casas são vendidas". Agora, dizer "vende-se casas" quer dizer que alguém (um sujeito indeterminado) vende casas. Ou seja: "alguém vende casas", "sujeito indeterminado vende casas". Imagine se uma pessoa se depara com a placa "vende-se casas". Ela se pergunta: "quem está vendendo casas"? A resposta será: "não sei, porque o sujeito é indeterminado". Logo, tanto faz dizer "vendem-se casas" ou "vende-se casas". 

Os gramáticos ainda não entraram num acordo. Alguns autores consideram a versão 1, enquanto que outros optam pela versão 2. Evanildo Bechara, conceituado gramático da ABL, defende a versão 2. Em sua gramática, ele afirma:

…o ‘se’ como índice de indeterminação do sujeito – primitivamente exclusivo em combinação com verbos não acompanhados de objeto direto –, estendeu seu papel aos transitivos diretos (onde a interpretação passiva passa a ter uma interpretação impesssoal: ‘Vendem-se casas’ = ‘alguém tem casa para vender’) … A passagem deste emprego da passiva à indeterminação levou o falante a não mais fazer concordância, pois o que era sujeito passou a ser entendido como objeto direto…

Por outro lado, Sérgio Nogueira, gramático do G1, opta pela versão 1:

Quando vejo escrito numa placa “CONCERTA-SE bicicletas”, primeiro fico imaginando uma “sinfonia” de bicicletas e, depois, a necessidade de CONSERTAR a plaquinha. O certo é: “CONSERTAM-SE bicicletas” (=”bicicletas SÃO CONSERTADAS”).

Conclusão:

Para não errar, diga sempre "vendem-se casas", pois essa construção está correta tanto na versão 1 quanto na versão 2. 


Aprofundando os conceitos...

Eu particularmente opto pela versão 2. Acredito que tanto faz eu falar "vende-se" ou "vendem-se", pois não há preposição depois do "-se".  O que muda é que no primeiro caso (vende-se) o sujeito é indeterminado e a expressão "casas" se transforma em objeto direto, enquanto que no segundo caso o sujeito existe na voz ativa (e se transforma em agente da passiva na voz passiva). Porém, se houver preposição (geralmente é a preposição "de"), então eu terei que usar o verbo sempre no singular. Exemplo: "necessita-se de algo" (e não "necessitam-se de algo), "trata-se de alguma coisa" (e não "tratam-se de alguma coisa").

O "se" não necessariamente virá acompanhado do hífen. Eu poderia falar, por exemplo: "No barbeiro do Darcy sempre se fica nervoso". Nesse caso, o "se" é o índice de determinação do sujeito, já que o verbo "ficar" está conjugado na 3ª pessoa do singular (ele/ela fica). E realmente não sabemos quem é o sujeito: afinal, quem é que fica nervoso?

3) "Caso"

Quando o "se" tiver o mesmo sentido de "caso" ele será uma conjunção condicional, ou seja: vai expressar uma condição para que a ação se realize.

Se você comprar um Fusca, eu vou colocar uma mensagem no vidro traseiro 
Caso você compre um Fusca, eu vou colocar uma mensagem no vidro traseiro 



Observe que comprar um fusca é uma condição para que a mensagem seja colocada no vidro traseiro.

4) "Já que" ou "uma vez que"

Quando o "se" tiver o mesmo sentido que "já que" ou "uma vez que" então ele será classificado como uma conjunção causal.

Como você emprestou o carro se ele não sabe dirigir?!
Como você emprestou o carro uma vez que ele não sabe dirigir?!

5) Conjunção Integrante 

Determinados verbos precisam do "se" de qualquer jeito, ou seja: o "se" é parte integrante do verbo, faz parte do verbo. Um exemplo é o verbo "queixar-se". Ninguém diz "ele queixou", mas sim "ele se queixou". Ninguém diz "ele arrependeu", mas sim "ele se arrependeu". Esses são alguns exemplos de verbos que precisam do "se" para serem conjugados. Nesses casos, o "se" atua como conjunção integrante.

Atenção:


Virgulino arrependeu-se de se desenhar num papel.

O verbo "desenhar" não depende do "se". Afinal, podemos dizer "Fulano desenhou alguma coisa". Agora, o verbo "arrepender" precisa do "se". Ninguém diz "Fulano arrependeu", mas sim "Fulano se arrependeu". Logo, não confunda pronome reflexivo (que é o caso do verbo "desenhar") com conjunção integrante (que é o caso de "arrepender-se").

6) Partícula de Realce

Não serve para nada, tanto que se você arrancá-lo não fará diferença alguma. Só serve para enfeitar. Exemplo:

Virgulino riu-se do filme. 

Retirando o "se", ficamos com:

Virgulino riu do filme. 

Veja que a partícula de realce sempre pode ser tirada da oração, ao contrário do pronome reflexivo. É por isso que "riu-se", nesse caso, não é pronome reflexivo, pois nós podemos simplesmente dizer "riu".

Conclusão 

Você acabou de ver as 8 funções que o "se" pode desempenhar: pronome reflexivo, pronome recíproco, partícula apassivadora, índice de indeterminação do sujeito, conjunção condicional, conjunção causal, conjunção integrante e partícula de realce. 

3 comentários:

  1. Suas explicações são excelentes e com muito bom humor, tornando o aprendizado prazeroso.

    no 2º caso, que trata da partícula apassivadora e iis, no 4º paragrafo, acho que houve um equívoco quando diz "Agora, se o verbo não estiver na terceira pessoa do SINGULAR então não será possível inverter a ordem dos termos da oração e brincar com as vozes verbais".

    Também no exemplo "Vende-se DE frangos bovinos".

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    1. Poxa, obrigado pela correção. Esses dois erros foram causados pelo fato de eu estar realizando modificações na postagem original e eu acabei não os percebendo. Muito obrigado.

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  2. Que língua chata de se estudar. Até Mandarim está sendo mais facil.

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