Redação 12: Coesão e Conjunções


Este é o Gramaticando Redação de número 12



No GR passado, nós falamos de algo muito importante: falamos sobre os clichês. Hoje daremos prosseguimento ao estudo estrutural da redação, falando a respeito da coesão. 

Veja:

Fui à praia. Comprei um sanduíche na praia. Assaltaram-me na praia. Voltei à pé para casa. 

Veja que esse trecho está SEM a tal da coesão. São orações fragmentadas e soltas que poderiam ser organizadas num único período (ao invés de usar três pontos finais, poderíamos usar apenas um). A falta de coesão numa redação significa um texto fragmentado, o que causa a repetição das palavras.

A ferramenta fundamental para garantir a coesão textual são as CONJUNÇÕES. Vejamos alguns exemplos de conjunção:

e, nem, não só... mas também, não só... como também, bem como, mas ainda, mas, porém, entretanto, todavia, contudo, ou, assim, logo, portanto, pois, por conseguinte, por isso, visto que, já que, uma vez que, como, desde que, se, caso, contanto que, desde que, salvo se, sem que, a menos que, conforme, segundo, consoante, embora, apesar, conquanto, posto que, ainda que, mesmo que, quando, enquanto, logo que, desde que, assim que, a fim de que, quando, enquanto, logo que, desde que, assim que... e a lista não para de crescer.

Cada uma dessas conjunções expressa algum tipo de circunstância, que pode ser finalidade, conclusão, acréscimo de ideias, comparação e por aí vai. Não vamos decorar a classificação das conjunções, mas sim ver na prática como elas funcionam.

Voltando ao exemplo, poderíamos reescrevê-lo usando as conjunções. Então, poderíamos escrever assim:

Fui à praia e comprei um sanduíche, mas fui assaltado e, por isso, voltei a pé para casa. 

Veja que esse novo exemplo "flui". Não está fragmentado e usamos a palavra "praia" apenas uma única vez. É esse o poder da coesão: "costurar" o texto, sem deixá-lo fragmentado ou quebrado. Um texto sem coesão é como uma camisa furada.

Portanto, use as conjunções sempre!

Qual a diferença entre redundância e pleonasmo?



A redundância nada mais é do que fazer uma repetição desnecessária, dizendo a mesma coisa duas vezes. É um erro que deve ser evitado.

Exemplos: "conviver junto" (conviver já quer dizer "viver junto"), "sair pra fora" (além de "entrar pra dentro", "subir pra cima", "descer pra baixo"), "metades iguais" (sério que são iguais?!), "estrelas do céu" (não me diga! Pensei que eram as do mar!), "novidade inédita", "países do mundo" (ainda bem que são do mundo, né?), "encarar de frente" (realmente é melhor do que encarar de costas), "elo de ligação" e por aí vai.

Típica pessoa que comete redundâncias  redondamente redundantes


Por outro lado, o pleonasmo é a repetição "correta" por conta da "licença poética", da literatura, coisa que escritores e poetas podem fazer. Como por exemplo, "e rir o meu riso". É claro que só podemos "rir um riso" e "chorar um pranto", mas essas palavras foram escritas por Vinícius de Morais com um intuito poético (Soneto da Fidelidade). O pleonasmo é uma repetição enfática, feita de propósito pelo autor.



Trovadorismo



Hoje em dia, está na moda a literatura fantástica, cheia de vampiros, de anjos e de zumbis. É o que o pessoal gosta de ler. Estamos vivendo a época do "Vampirismo", do "Harry Potterismo", do "Senhor dos Aneisismo" e por aí vai. 

Porém, na Idade Média, os tempos eram outros. A galera vivia o período conhecido como "Trovadorismo". Claro que as coisas eram um pouco diferentes: não existia Facebook, nem Twitter, nem televisão, graças a Deus não havia Zorra Total e, além disso, as pessoas viviam no Feudalismo (imagine o tédio). Ou seja: ao invés de viverem num país governado por um presidente e dividido em estados e em cidades, o povo vivia em feudos (espécie de fazendas autônomas) chefiadas por um camarada chamado "suserano" (que era o dono do pedaço). O suserano era "o cara" e quem trabalhava para ele eram os "vassalos". Os vassalos cultivavam nas terras do suserano, entregando parte da produção ao chefe e sendo completamente fiéis aos seu senhor. Como troca, o suserano oferecia proteção militar (já que naquela época o pau comia mesmo). Era esse o contexto da época. 

Porém, na Idade Média, as coisas não eram tão liberais como são hoje. Hoje em dia, crianças rebolam o funk, a moda é ser "vida loka" e tudo anda muito mais liberal. Na Idade Média, a situação era outra: o cara simplesmente se sentia inferior à mulher, que era tida como uma espécie de deusa toda-poderosa e inatingível. A mulher era a suserana e o cara, um mero mortal, era o seu vassalo, o seu servo. 

HOJE:



NO TROVADORISMO:


Logo, ser romântico era o mesmo que ser "submisso", adorando a mulher inatingível e perfeita. Essa era a temática das "cantigas de amor": eram poesias cantadas e escritas por um cara que contemplava a mulher longe e distante, amargando um amor não correspondido. O cara era o vassalo e a mulher era a suserana. Era a chamada "vassalagem amorosa": o sentimento de submissão, a mulher inatingível, o amor não correspondido e, por isso, o rapaz vivia em constante estado de sofrimento por desejar a mulher sem conseguir nenhum resultado. 

Exemplo:

"A dona que eu am'e tenho por Senhor
amostrade-me-a Deus, se vos en prazer for,
se non dade-me-a morte.
A que tenh'eu por lume d'estes olhos meus
e porque choran sempr(e) amostrade-me-a Deus,
se non dade-me-a morte.
Essa que Vós fezestes melhor parecer
de quantas sei, a Deus, fazede-me-a veer,
se non dade-me-a morte.
A Deus, que me-a fizestes mais amar,
mostrade-me-a algo possa con ela falar,
se non dade-me-a morte."


Por favor, não entenda "submissão" do cara pela mulher do tipo "chicote" e "coleiras". A mulher não vai prender a coleira no rapaz e dizer: "vem, meu cachorrinho. Eu mando em você, MUA-HÁ-HÁ". Ser "submisso" significa "ser inferior". A mulher encontra-se num lugar superior, longe do homem. 

Mesmo que o trovador fosse esperto, criativo e romântico, ele JAMAIS conseguiria desenrolar com a mulher. Ela é uma deusa inatingível, não importa o tipo de "cantada" que ela receba. 

Hoje em dia, o romantismo anda meio em queda:



Na Idade Média, os homens viajavam bastante por conta das guerras. Eles viajavam de modo inesperado, deixando suas namoradas em casa, que esperavam ansiosamente por eles. E, claro, não existia Facebook, nem celular, nem telefone, nem e-mail. Imagine o cara chegar para a sua namorada e dizer: "querida, estou indo pro outro lado do mundo para guerrear. Não sei quando volto... Se eu voltar, claro".

Nesse contexto, surgiram as "cantigas de amigo", onde o eu-lírico (a pessoa que escreve a cantiga) é uma mulher ansiosa e preocupada com o seu "amigo" (namorado) que partiu, não sabendo quando ele vai voltar (ou se realmente vai voltar). O ambiente retratado é bem bucólico (no meio do mato), levando em conta a vida camponesa nas aldeias. Essas cantigas expressam a dor da mulher em virtude da partida seu amado (chamado de "amigo").

Obs: o eu-lírico é feminino, mas quem escreve a cantiga é um homem. As mulheres não escreviam porque eram consideradas analfabetas. Logo, o trovador era o homem que escrevia as cantigas de amigo se passando pela mulher, que agonizava pelo seu "amigo" (amado, namorado) que havia ido embora. 

As cantigas de amigo retratam a mulher preocupada, perguntando para suas amigas, para o céu, para o mar,  para os pássaros e para tudo ao seu redor onde estaria o seu bofe amado. Vejamos um exemplo:

Ai flores, ai flores do verde pinho
se sabedes novas do meu amigo,
ai deus, e u é?

Se sabedes novas do meu amado,
aquele que mentiu do que me há jurado
ai deus, e u é?


Seria algo do tipo: "Ai meu Deus! Alguém viu o meu amor? Vocês viram ele, flores? Vocês viram ele, árvores? Você viu ele, mar?".

As "cantigas de amor" e as "cantigas de amigo" são classificadas como "cantigas líricas".

Por outro lado, existem as "cantigas satíricas", que são: as de "escárnio" e as de "maldizer". Traduzindo para os dias de hoje, as "cantigas satíricas" são as "cantigas troll", ou seja: o cara "trolla alguém" (sacaneia), chamando a mulher de gorda, feia, velha, etc... A diferença é que, na cantiga de escárnio isso acontece de modo indireto, mais sutil, sem dizer o nome da pessoa, usando duplo sentido, enquanto que na "cantiga de maldizer" o cara simplesmente debocha de alguém, expondo o seu nome, podendo usar palavrões e sendo mais agressivo.

Então vamos resumir o que vimos até então:

CANTIGAS LÍRICAS 

Cantiga de Amor: o homem é o vassalo e a mulher é a suserana perfeita, linda e maravilhosa, que não corresponde o amor e parece ser inatingível. O cara, claro, vive se amargando por conta desse amor não correspondido.

Cantiga de Amigo: a mulher fica amargando pelo "amigo" (amado) que partiu em viagem.

CANTIGAS SATÍRICAS 

Cantiga de Escárnio: o cara sacaneia alguém de modo indireto, usando duplo sentido e ironia, sendo sutil.

Cantiga de Maldizer: o cara sacaneia alguém de modo escrachado e debochado, sem usar duplo sentido, rebaixando as palavras aos palavrões e sendo agressivo.

O Trovadorismo representa as características literárias que estavam "na moda" na Idade Média. Era o que o pessoal curtia. Vale lembrar que as cantigas eram poemas cantados pelo trovador, geralmente reunidas em cancioneiros. Essas cantigas medievais portuguesas eram escritas na "medida velha" (cinco ou sete sílabas poéticas). Além disso, o idioma era o galego-português e, por isso, nem sempre é fácil compreender uma cantiga dessas. 

Redação 11: Clichê




Este é o Gramaticando de Número 11. 

Até agora, nós falamos a respeito da argumentação, ou seja, do conteúdo do texto, da "alma" do texto. Agora, é hora de falarmos do "corpo", da estética, da aparência. 

E vamos começar falando de uma coisa importantíssima que você deve evitar, a todo custo, em sua redação. Essa coisa estraga e acaba com a sua redação por melhores que sejam as suas intenções. O nome dessa coisa horrível é CLICHÊ, também conhecida como AQUILO QUE NÃO DEVE SER PRONUNCIADO.

O clichê tem um efeito devastador em seu texto. É a mesma coisa que "chegar numa mina linda e maravilhosa na balada" e perceber que ela não tem dente (viu que horror?). O clichê é isso: são os dentes que faltam na sua redação, dando um aspecto horroroso. E não existe dentadura nem Corega para consertá-la.

O clichê é o "senso comum" das expressões. São aquelas expressões que todo mundo usa e que todo mundo está cansado de ouvir. Então, aí vai uma listinha com alguns exemplos de clichês que você deve, acima de tudo, evitar em sua redação:

desde os primórdios da humanidade
nos dias de hoje
nos dias atuais.
atualmente
com base nos fatos mencionados, conclui-se que
para concluir
luz no fim do túnel
no fundo do poço
um caso de amor e ódio
é preciso que todos se conscientizem
caixinha de surpresas
como o diabo foge da cruz
a pergunta que não quer calar
agradar a gregos e a troianos
pedras no sapato
faca de dois gumes
se cada um fizer a sua parte
fechar com chave de ouro
voltar à estaca zero
aparar as arestas
nós, brasileiros
nós, seres humanos
é conveniente para o governo que
crítica construtiva
nunca antes na história da humanidade
nunca antes na história do Brasil
só assim conquistaremos a vitória
nos quatro cantos do mundo
tocar corações e mentes
correr atrás do prejuízo
obra faraônica
a todo vapor
dar a volta por cima
em alto e bom tom
preencher uma lacuna
deixou a desejar
do Oiapoque ao Chuí
quem tem boca vai a Roma
começar com o pé direito
antes de mais nada
inserido no contexto
rota de colisão
mão na roda
está na moda


E algumas citações, por serem usadas demais, também caíram no caso dos clichês:

Só sei que nada sei (Sócrates)
Tudo vale a pena quando a alma não é pequena (Fernando Pessoa)
Da onde eu vim? Para aonde eu vou? 



Clichês são todas aquelas expressões "prontas" e "clássicas". Eles estragam o seu texto, dizendo: "olhe! Eu gosto de Zorra Total! Eu gosto de A Praça é Nossa!" (nada contra esses programas, ok?). Ou então, é a mesma coisa que dizer: "Vejam! Eu sou preguiçoso! Não gosto de ser original! Eu gosto mesmo é de escrever o que todo mundo escreve!".

Além dos clichês, você deve evitar informalismos (onde, a gente, etc...) gírias e expressões vagas (todo mundo, sempre, nunca, todos, etc...).

Como evitar todas essas expressões e ser original? Resposta: através da leitura.

Eu já disse várias vezes que a leitura é o principal segredo da redação e é justamente por isso que não existe nenhuma fábrica de fazer escritores profissionais instantâneos. Continue com o seu dever de casa, acessando portais de notícias. Em cada artigo que você ler, você estará absorvendo, de modo inconsciente, o modo correto de escrever. Lá pelas tantas, você vai pensar: "Humm... eu li em algum texto que bom-dia tinha hífen, que dia a dia não tinha, etc..." Simplesmente por ler, você aprimorá a sua ortografia e também o seu poder de argumentação.


Continua em breve...

Redação 10: O Tema




Este é o GR de número 10. 

Estamos, agora, finalizando a primeira parte das orientações destinadas à produção da redação. Nos 9 artigos anteriores, focamos no aspecto da argumentação: você aprendeu como argumentar e como não argumentar. E no GR anterior nós falamos a respeito de opinião. 

Hoje, eu quero separar um tempo para falar de tema. O tema é a origem de sua redação, pois é a partir dele que você vai refletir, se posicionar e escolher os argumentos que serão desenvolvidos. Se você não entender o tema, já era: todo o trabalho que vier depois irá por água abaixo. Não adianta escrever perfeitamente bem sobre "abacaxi" se o tema proposto foi sobre "abacate".

Vejamos um exemplo:

"Como conscientizar o uso sustentável dos recursos naturais?" 

Veja que o tema NÃO é "uso sustentável dos recursos naturais". Veja que o tema NÃO é "recursos naturais". Veja que o tema é COMO CONSCIENTIZAR o uso sustentável dos recursos naturais. Então, se você escrever uma redação dizendo "como devemos usar os recursos de modo sustentável" você estará fugindo do tema proposto e isso significa um ZERO (para os avaliadores mais radicais).

Logo, a que conclusão chegamos? Resposta: ENTENDA o tema. Não basta ler. É preciso ENTENDER e, para entender, é preciso ler várias vezes.

Geralmente, nos vestibulares, nos concursos públicos e no ENEM, o tema não aparece como uma simples frase, mas sim aparece acompanhado do chamado "texto motivador". E, claro, você não pode copiar nem se basear nesse texto, ou seja: é um texto "desmotivador", porque se você copiar a ideia dele você não estará sendo original.

Porém, em outros concursos públicos a coisa é diferente. Lembro-me bem de um exemplo: ao invés do tema ter aparecido na prova acompanhado de textos motivadores, o fiscal da prova simplesmente tirou o lacre de um envelope e leu o tema da redação, que era: "se a justiça clava forte, verás que o filho teu não foge à luta".

De todo modo, não importa se o tema é dado direto ou então acompanhado por textos motivadores. O que interessa é que você deve entendê-lo perfeitamente e não fugir dele. Se você começar a sua redação falando de "abacaxi", precisa terminar falando de "abacaxi" se o tema for "abacaxi".

O tema é uma restrição do assunto. O assunto "política", por exemplo, possui diversos temas: história da política, polêmicas políticas, corrupção, funcionamento da política, etc... Às vezes, o tema é objetivo, sendo claro e atual. Em outras vezes, ele pode ser subjetivo, associado, por exemplo, às emoções ou aos valores humanos (amizade, justiça, amor, tristeza, etc...). Em outras vezes, o tema aparece como uma pergunta que deve ser respondida por você. Ou então, o tema pode ser alternativo: você precisa escolher um lado (ou pró, ou contra).

Com tanta flexibilidade e variedade, o tema é algo imprevisível e é capaz de pegar de surpresa até os mais bem preparados. É por conta dessa diversidade que o principal segredo da redação continua sendo a "visão de mundo", o "conhecimento". Você precisa saber um pouco de tudo, tanto conceitos quanto atualidades.

"Ah, mas eu só vou fazer redação no ENEM e pronto!"

Negativo! A redação é apenas uma das facetas de seu conhecimento e de sua visão de mundo. Todos nós passamos a nossa vida escrevendo, falando, se expressando e se comunicando. As pessoas emitem impressões de nós baseando-se em nossa postura e em tudo aquilo que falamos ou fazemos. Os profundos propósitos da redação vão nos acompanhar em nossas vidas profissionais e pessoais.

Não se trata apenas em escrever um monte de palavras no papel. Trata-se de escolher que tipo de pessoa você quer ser. Atualizada ou esquecida no tempo? Guiada pelo senso comum ou detentora de visão? Manipulada pelas mídias ou possuidora de senso crítico? Pensada pelos outros? Vendida pelos outros que agem segundo os seus interesses?

Seu dever de casa para a próxima semana será acompanhar, agora, as manchetes diárias. Escolha um portal (G1, UOL, etc...) para acessá-lo antes de dormir. Se houver conceitos específicos que você não entender procure saber o significado deles. Esteja disposto, a partir de agora, encarar a "redação" segundo os seus propósitos mais profundos.

Sinta-se desafiado a manter esse hábito. Pode parecer chato no início, mas quando você menos esperar, não estará dormindo sem, ao menos, ver uma notícia.

No próximo GR, vamos começar a falar a respeito da estrutura da redação. Você começar a falar de adequação vocabular, paragrafação, coesão, entre outros assuntos.

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Redação 9: A Opinião




Este é o GR de número 9. 

Já falamos como "argumentar", como "não argumentar" e, agora, vamos partir para algumas considerações gerais. Hoje, vamos falar a respeito da "opinião". 

"Opinião" e "argumento" andam juntos. Você não pode opinar sem ter um argumento, nem argumentar sem ter uma opinião. Ao dizer "eu gosto de refrigerante", automaticamente há um argumento embutido aí, que pode ser "o refrigerante é saboroso". Portanto, se você não tem opinião, então é porque faltam argumentos e isso se deve à falta de conhecimento do assunto.

Se o tema for algum assunto que você não conhece, então você não terá o que argumentar e, consequentemente, não terá opinião. Portanto, além de dominar as técnicas de argumentação, é preciso ter, ao menos, um conhecimento conceitual de assuntos estratégicos, algo que você teve a oportunidade de ver ao longos dos GRs.

Para a redação, você precisa ter uma opinião clara e objetiva. Se a temática for alternativa (você precisa tomar uma posição ou outra, como as temáticas de "favor" e de "contra"), então esclareça bem a sua posição.

Ex: "Você é contra ou a favor da pena de morte?"

A temática pode também ser uma pergunta. Então, você deve, em seu texto, responder a essas pergunta.

Ex: "Trânsito caótico nas cidades: um problema sem solução?"

Existem temas que abordam problemáticas. Nessa ocasião, você deve propor uma solução, explicando o motivo de ela ser capaz de resolver a situação.

Além disso, você pode expressar a sua opinião de modo condicional, expondo devidamente as condições com argumentos consistentes.

Ex: "Eu sou a favor da privatização da malha ferroviária do país, desde que os acionistas majoritários sejam brasileiros e assumam o compromisso verdadeiro de aprimorarem o serviço sem elevar o custo das passagens."

Emitir "opinião condicional" é diferente de "ficar em cima do muro", que seria este caso:

Ex: "Eu sou a favor da privatização da malha ferroviária do país, pois através da privatização os serviços poderão melhorar. Porém, eu sou contra a privatização porque isso é uma tendência neoliberal e o Estado não pode se sujeitar a isso".

Logo, ao começar a redação, tenha em mente que você precisa ter uma opinião firme, objetiva e constante ao longo do seu texto. Ela precisa ser clara e estar bem apresentada para o leitor. Quando o leitor "bater os olhos" no primeiro parágrafo de sua redação, ele deverá saber qual é o seu posicionamento a respeito do tema.

Caso você fique na dúvida a respeito do próprio posicionamento, estimule a argumentação. Pergunte-se a respeito das causas e das consequências relacionadas ao tema. Procure por exemplos relacionados ao assunto e busque por comparações. Use as técnicas de argumentação apresentadas pelos GRs para você estimular o seu próprio posicionamento.

A opinião é a marca registrada de uma redação. Se ela não for objetiva, não for clara e abrir espaços para interpretação, então a sua redação estará seriamente comprometida. Afinal, não ter opinião seria o mesmo que comparecer a um debate e nada defender ou nada atacar.

O seu dever de casa para a próxima semana será acompanhar as notícias. Você pode acessar o G1 ou o portal do UOL, por exemplo. Escolha as notícias mais interessantes que estiverem em manchete na página principal, mas procure ler um pouco de tudo, como "economia", "mundo", "política", "esportes", "ciência", etc... Assuma o compromisso de acessar esses portais pelo menos uma vez ao dia. Caso haja termos que você não entenda (por serem específicos demais na área), vá atrás do conceito e aprimore ainda mais a sua visão de mundo.

Essa é a maneira correta de se escrever bem. Não há mais segredos.

Só depende de você.


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Redação 8: O Senso Comum




Este é o GR de número 8. 

Nos GRs de números 6 e 7, nós falamos a respeito de como NÃO argumentar na redação discursiva. No GR 6 eu citei cinco dicas importantes que devem ser levadas em conta na hora de escrever e no GR 7 nós falamos a respeito da coerência. 

Hoje, vamos encerrar a parte do "como NÃO argumentar" falando de outro ponto importante: o SENSO COMUM. 

Você pode argumentar perfeitamente bem usando as técnicas de argumentação (exemplificação, causa e consequência, citação, etc...). Porém, a sua redação precisa ter uma coisa chamada "originalidade". É aí que entra o "pulo do gato": não é preciso ter ideias mirabolantes para ser original. Para você escrever com originalidade basta evitar o chamado "senso comum".

O senso comum é formado por aquelas ideias prontas e universais, do tipo "Maria vai com as outras".

A mais clássica delas é a "conscientização da população", solução universal para todos os problemas da humanidade. Se o tema é "sustentabilidade", a redação vem escrita assim: "é preciso conscientizar a população a respeito da sustentabilidade". Se o tema é "trânsito", a redação vem escrita assim: "é preciso conscientizar a população a usar mais o transporte público a fim de diminuir a quantidade de veículos usados por uma única pessoa". Se o tema é "convivência em sociedade", a redação vem assim: "é preciso conscientizar as pessoas a respeito da vida da sociedade, levando-as a refletirem que a liberdade pessoal não deve comprometer a de outra pessoa".

E por aí vai... "é preciso conscientizar" pra cá, "é preciso conscientizar" pra lá e pronto: a redação está feita, de modo genérico, sem originalidade, sendo guiada pelo senso comum da conscientização.

Outro exemplo é o "Governo milagreiro". O senso comum diz que todos os problemas do Brasil são culpa do Governo e somente ele é capaz de resolvê-los, como se ele fosse uma espécie de super-homem. Se o tema é "o problema da educação", esse problema é causado pela falta de investimento do Governo. Se o tema é "problema da saúde", essa situação só pode ser resolvida pelo investimento do Governo. Se o tema é "problema na infraestrutura", esse problema é causado unicamente pelo Governo e só pode ser resolvido por ele. E, mais uma vez, acabamos de escrever uma redação embalada pelas ideias do senso comum, culpando o Governo por todos os problemas do país e atribuindo a ele um ar de "milagreiro", como se a solução para eles fosse um maior investimento por parte do Estado (como se ele esbanjasse dinheiro e tivesse um superávit infinito).

Outro exemplo do senso comum: "todos os políticos são corruptos, ladrões e etc...". Então, tudo o que acontece de ruim no Brasil é por culpa da dona corrupção.

Ora, primeiramente, quem enfia o camarada de terno e gravata lá dentro do Congresso Nacional? Não é a toa que existe uma máxima que diz: "a nação tem os governantes que merece ter". Afinal de contas, somos nós que temos o poder de votar e de escolher quem vai para o planalto e, além disso, nós temos o compromisso, como cidadãos, de acompanhar os fatos políticos de nosso país, fazendo jus a nossa democracia. Agora, ficar simplesmente dizendo que "político é ladrão" sem ao menos buscar saber o mínimo de Política é típica coisa de alguém que fica na "massa", que atola no "senso comum", que não pensa, mas sim é "pensado" pelos outros.

Estar no senso comum é se deixar levar pelo o que todo mundo diz; é não se preocupar em pensar, mas sim deixar ser pensado pelos outros, concordando com o que todo mundo diz. Assim acontece na redação: o avaliador pega aquela pilha de papeis e corrige diversos textos semelhantes, todos falando que o "povo precisa se conscientizar" e que "o Governo precisa investir mais nisso, mais naquilo" e etc...

Então, eis que aparece uma redação que argumenta de um jeito diferente, dizendo, por exemplo, que a iniciativa privada pode aliar a sua imagem à sustentabilidade, ganhando a credibilidade de seus clientes pela sua iniciativa e consolidando a sua marca no mercado além de chamar a atenção para a preservação ambiental. Enquanto isso, dezenas de redações dizem que a sustentabilidade é resolvida pela tal da "conscientização do povo em preservar a natureza". Qual das redações tem mais originalidade?

Portanto, jamais esqueça isso: "ser original não é ser inovador, mas sim ser diferente, fugindo do senso comum." E para fugir do senso comum você precisa ter mais leituras, ou seja: você precisa ter mais bases conceituais. Desde o início do Gramaticando Redação, eu sugeri temas para sua leitura, como Economia, Política, Sustentabilidade, Sociedade e etc... Somente assim você poderá desenvolver o seu espírito crítico, ser mais criativo, ser mais original e fugir do monstro do "senso comum". Isso faz muita diferença numa redação... Muita diferença mesmo!

Portanto, nesse último artigo sobre "como NÃO argumentar", apontamos esse grande segredo: JAMAIS siga o SENSO COMUM. Jamais queira dizer o que todo mundo diz, jamais queira ser "pensado" pelos outros. Amplie as suas leituras, agregue conhecimento de mundo e pense por si só, tirando suas próprias conclusões.

Isso não é só para a redação. Isso é para a vida...

O seu dever de casa para essa semana será ler a respeito de algum assunto diferente dos propostos até então. Depois de Política Interna, Política Externa, princípios de Economia, entre outros, chegou a sua vez de decidir o que quer ler. Pense talvez na história das artes, ou então nos direitos humanos e da sociedade. Pense novamente na Política e busque entender, de uma forma mais profunda, as diferenças entre direita e esquerda, os prós e os contras de cada posição.

Eu gostaria que você, ao final dessa semana, pudesse olhar para si mesmo e dizer com afinco: "eu aproveitei essa semana para aprender mais sobre tal assunto".

Aquela ideia de que "se você não vai até a montanha ela vai até você" não funciona aqui. Se você não quiser ler, então ninguém poderá fazer isso por você :)


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